« Tinha atravessado a Europa clandestinamente
para ver o seu filho de dezoito anos.
Este gesto diz algo que nenhum julgamento pode apagar. »
Tinha dois anos quando o seu pai desapareceu da sua vida. Depois nada. Até aos dezoito anos.
Um Minitel nos correios do Boulevard Gambetta de Nîmes. Samir digitou o apelido. Um ecrã verde apareceu. Um nome. Um endereço. Um número de telefone. Em Marselha.
Tinha encontrado o seu pai num Minitel dos correios, entre duas pessoas que esperavam a sua vez na fila.
Aïssa Boumaza tinha sido condenado, cumprira dezassete anos nas Baumettes de Marselha. Expulso de França. Regressado à Argélia. Proibido do território.
Uma semana depois, o seu pai estava lá. Aïssa Boumaza tinha atravessado o Mediterrâneo, passado pela Itália, chegado a Marselha. Expulso, proibido do território, voltara na mesma. Para ver o seu filho.
Poder-se-ia dizer muito sobre esse homem. Pode-se julgar a sua vida, as suas escolhas, os anos de prisão, a ausência. Mas esse gesto — atravessar a Europa clandestinamente para ver o seu filho de dezoito anos — diz algo que nenhum julgamento pode completamente apagar.
Samir caminhava ao seu lado. E pensava no Scarface. Naquelas personagens que ocupam o espaço de forma diferente dos outros. Era o seu pai. Sabia agora de onde vinha. Não de onde vinham os seus valores — isso era Jacqueline, inteiramente Jacqueline. Mas algo no olhar. Algo no carisma. Estava inteiro, pela primeira vez.